Quarta-Feira, 10 de Agosto de 2022

Ruslan e Masha não se casaram. A guerra não permitiu – Por Luiz Henrique Lima




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A casa da família de Masha foi atingida no início dos combates e hoje os sobreviventes estão refugiados em um abrigo num terceiro país para o qual conseguiram escapar, percorrendo dezenas de quilômetros a pé, acossados pelas intempéries do inverno e da guerra.

Ruslan foi convocado para resistir à invasão e, mesmo sem experiência ou aptidão com armas, designado para a linha de frente. O jovem, que planejava plantar um jardim diante da pequena casa que iriam alugar, está nesse momento entre rajadas de metralhadoras e morteiros disparados por rapazes ainda mais jovens que ele, muitos dos quais não terão a oportunidade de viver um namoro ou noivado.

Essa guerra um dia acabará. Os tiranos que a promovem em breve sucumbirão e a suja memória de seus nomes estará eternamente associada à de seus crimes, como, aliás, também acontecerá por aqui e alhures, onde há outras guerras, bombardeios, massacres e chacinas, inspiradas pelo racismo, pela xenofobia, pela intolerância religiosa ou por ganância de riqueza e poder.

Todavia, o rastro de destruição e morte irá perdurar por décadas, assim como a semente do mal. Reconstruir escolas, igrejas, pontes e sistemas de abastecimento de água demanda tempo e dinheiro. Recuperar lavouras e rebanhos, desinfectar nascentes e repovoar a fauna e a flora, igualmente. Mas é muito mais difícil e doloroso reconstruir famílias partidas, esfaceladas, dizimadas pela estupidez e crueldade da violência absurda que as guerras trazem. Há feridas de quase impossível cicatrização.

A pior herança das guerras é o multiplicar de ódios e ressentimentos nas vítimas de todos os lados e que se perpetuarão por gerações. A guerra, além de tudo, envenena os sonhos que o amor dos jovens criou. Mia Couto, o grande escritor moçambicano, uma vez disseram: “a guerra é uma espécie de serpente que matamos sem pisar a cabeça. Um pequeno descuido e eis que ela ressurge no escondido do capinzal”. Masha e Ruslan conseguirão sobreviver e se reencontrar?  Não sei. Torço por eles e por seu amor.

LUIZ HENRIQUE LIMA é auditor substituto de conselheiro do TCE


Autor:Luiz Henrique Lima


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