Fora das cidades, no isolamento dos aldeamentos, indivíduos xavantes, sobretudo na terceira idade, sofrem depressão e outros transtornos mentais, cuja origem, em parte é decorrente do chamado choque cultural.
O alerta nesse sentido partiu do professor de Ciências Humanas, Xisto Tserenhi Ru Tserenhimi Rami, diretor da Escola Indígena Hambe, na aldeia Nova Esperança, da Terra Indígena São Marcos, em Barra do Garças (509 km a Leste de Cuiabá), onde nasceu.
Em Cuiabá, 57% dos adultos estão com excesso de peso ou obesos numa postagem* em sua rede social, Xisto falou sobre a morte de seu compadre Ubaldo Xavante. O xavante abordou o problema com profundidade.
Cauteloso, Xisto explicou que os jovens de seu povo não cuidam dos mais velhos, como acontecia com as gerações anteriores. Sentindo-se abandonados e, em muitos casos, vítimas de depressão, diabetes, hipertensão arterial ou com visão parcialmente comprometida, idosos procuram isolamento no cerrado evitando as aldeias, como foi o caso de Ubaldo Xavante.
O comportamento da juventude aldeada em parte refletiria a mudança de seus costumes. O jovem divide o tempo entre o aldeamento e a cidade, onde boa parte estuda, cursa faculdade e tem residência de apoio.
Naturalmente – observa Xisto – os hábitos da sociedade envolvente chegam às terras indígenas onde o choque cultural acontece. De adolescente pescador, caçador e praticante de esporte indígena, o jovem vai à zona urbana, de onde volta com um celular, o costume de assistir televisão, de frequentar igreja, com alteração de seus hábitos alimentares e de vestimenta.
O jovem aldeado experimenta uma estranha miscigenação em si próprio: em parte continua sendo xavante e em parte sente-se urbanizado. Não se trata de dualidade, mas de alteração comportamental – argumenta Xisto em outras palavras.
Essa mudança reflete na ponta, no relacionamento familiar, sobretudo com os mais velhos. Xisto não aposta na solução imediata do problema. Reconhece que a Saúde Indígena seja satisfatória nas aldeias, no tocante à saúde básica, mas lamenta a falta de atendimento de média e alta complexidade nos territórios xavantes.
Psiquiatras e psicólogos somente atendem os povos indígenas nos hospitais e clínicas nas cidades – no caso de seu povo a referência é Barra do Garças, pois as áreas da etnia concentram-se em municípios no entorno dessa cidade no Vale do Araguaia.Os problemas de saúde que afetam moradores nas cidades também estão presentes nas aldeias.
Xisto lembra que o primeiro bebê vítima fatal de convid em Mato Grosso foi um xavante de 8 meses, da Terra Indígena Marãiwatsédé, que morreu em 11 de maio de 2020 no Hospital Regional de Água Boa. "Então, é preciso prestar atenção a esses fatos", salienta.
A depressão tem que ser enfrentada com acompanhamento especializado, o que não acontece nas aldeias, onde sequer há estatística sobre o quadro, para nortear política de Saúde Indígena. Xisto defende que a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) busque meios para tanto.
Paralelamente a isso, defende que seja prestado algum tipo de assistência psicológica aos jovens que dividem o tempo entre a aldeia e a cidade, para prepará-lo para a inevitável mudança de costumes em curso.
Finalizando, observa que em Campinápolis (658 km a Leste da Capital), a metade da população do município é xvante, e que os jovens de sua etnia permanecem em constante relacionamento com os urbanos, ora nas escolas, ora na noite, ora disputando partidas de futebol, e que essa integração tem grandes reflexos junto aos idosos aldeados.
Mensagem de Xisto do Facebook: “Hoje ocorre uma tragédia que precisa ser discutido a nível do conselho de saúde Xavante, condis Xavante. Não é simplesmente dizer, mas lutar para amadurecimento. O meu compadre Ubaldo, que contraiu o problema de saúde mental.Ele andava nas redondezas da aldeia, quando que de repente desapareceu. Foi depois de uma semana a comunidade se mobilizou na procura, e acharam ele no meio do mato. Ele tem diabete comigo das maiorias da fase etária dele.”
“É lamentável dizer que deu a óbito, sem atenção da situação, de como se encontra. É para se pensar nos tratamentos psicológicos no povo xavante em específico, o povo xavante está morrendo dentro da casa, dentro da aldeia, não pode simplesmente levar, têm que pensar em trazer a estrutura para o meio da comunidade. Não tô obrigando ninguém, apenas colocando para reflexão e pensar. Também quero dizer avançamos em algumas situações. Obrigado pela atenção” finaliza ele.
Autor:Eduardo Gomes com Diário de Cuiabï