Quarta-Feira, 29 de Junho de 2022

Delegado da Polícia Federal que investiga Zequinha Marinho diz que foi ameaçado por políticos




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O delegado da Polícia Federal, Alexandre Saraiva, ex-superintendente da PF no Amazonas, aponta o senador Zequinha Marinho (PL) pré-candidato ao governo do Pará nas eleições de 2022, como um dos políticos que tenta interferir no trabalho de investigações sobre crimes ambientais 

O senador paraense foi um dos políticos citados pelo delegado em entrevista à Globo News na última terça-feira (14). O delegado fazia uma participação ao vivo comentando sobre o desaparecimento do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira. 

Segundo ele, os criminosos, responsáveis pelo desmatamento na Amazônia e exploração de garimpos ilegais, têm boa parte dos políticos da região Norte no bolso, incluindo governadores, deputados e senadores.

“Eu tenho aqui, uma coleção de ofícios de senadores de diversos estados da Amazônia, que mandaram para o meu chefe dizendo que eu estava ultrapassando os limites da lei, que estava cometendo abuso de autoridade. Teve senador junto com madeireiro me ameaçando”, disse. Saraiva afirma em um trecho da entrevista que não é fácil estar na Amazônia, justamente por causa da interferência de políticos, que são financiados por grupos criminosos. 

"Vou dizer nomes: Zequinha Marinho, que estava junto lá com o Ricardo Salles, no dia da Operação Handroanthus, Telmário Mota, Messias de Jesus, Jorginho Melo (de Santa Catarina!), mandou ofício... Carla Zambelli foi lá também defender madeireiro junto com Ricardo Salles. Nós temos uma bancada do crime. Na minha opinião, de marginais. São bandidos", afirmou o delegado Alexandre Saraiva. 

De fato, no dia 31 de março de 2021, o senador Zequinha Marinho esteve na Cachoeira do Aruã, no rio Arapiuns, em Santarém, no oeste do Pará, acompanhando o ex-ministro Ricardo Salles. Na comitiva, estava também a deputado Carla Zambelli. Neste dia, a equipe do ex-ministro foi recepcionada por madeireiros liderados pelos parlamentares, que eram os porta-vozes dos supostos donos dos lotes de madeira apreendidos. 

Antes da viagem para Cachoeira do Aruã, o Ricardo Salles se reuniu em um hotel em Santarém com um grupo de empresários ligados ao setor madeireiro. A região Cachoeira do Aruã, no Rio Arapiuns, foi onde a Polícia Federal apreendeu um carregamento de madeira ilegal. Mas a maior parte da carga já foi liberada pela Justiça Federal do Amazonas.

A ligação de Zequinha Marinho com grupos de madeireiros e grileiros de terra é histórica. Em 2020, ele postou um vídeo nas redes sociais, onde aparece acompanhado de nada menos que Jassonio Leite, apontado como o maior grileiro de terras indígenas da Amazônia. Marinho também intermediou encontro de representantes da Rondobel, alvo da operação Handroanthus com o vice-presidente Hamilton Mourão. 

A Rondobel Indústria e Comércio de Madeiras foi responsável, segundo a PF, pela extração da maior parte da madeira apreendida na operação. Diretores da madeireira integram a Associação das Indústrias Exportadoras de Madeiras do Pará (Aimex), que fez lobby para acabar com a necessidade de que o Ibama autorize a exportação de cargas de madeiras retiradas das florestas no país.

O parlamentar paraense, em janeiro do ano passado, foi um dos políticos que se queixou dos supostos ‘excessos’ cometidos pelos federais. Marinho inclusive chamou agentes do Ibama de ‘bandidos’ e considerou a ação da PF “pior do que o Estado Islâmico”. Ex-vice-governador do Pará, e atualmente senador, ele já exerceu mandatos de deputado federal e estadual, hoje se apresenta como pré-candidato ao governo do Estado.

O delegado Alexandre Saraiva esteve à frente da Operação Handroanthus da PF, deflagrada em 2020 e que apreendeu 226.760  metros cúbicos de madeira ilegal na divisa entre Amazonas e Pará. Foi a maior apreensão de madeira ilegal da história da PF. Uma carga avaliada em cerca de R$ 130 milhões.A investigação da Polícia Federal, à época, apontou desmatamento ilegal, grilagem de terra, fraude em escrituras e exploração madeireira em áreas de preservação permanente. 

Em 2021, Alexandre Saraiva foi transferido da Superintendência da PF no Amazonas e foi retirado do cargo um dia após apresentar ao Supremo Tribunal Federal (STF), uma notícia-crime contra o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Saraiva acusava Salles de dificultar as investigações.Na entrevista à Globo News, o delegado afirma categoricamente que é difícil conter o avanço dos crimes ambientais na Amazônia e ratificou que a interferência de políticos é maior entrave no combate às ilegalidades na região.


Autor:Marcus Passos com G1 Pará


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